8.5.06

EU E A MINHA MÃE

MÃE, PARTISTE SEM AVISO... A MORTE SÚBITA FAZ DESTAS...
JÁ LÁ VÃO 7 ANOS!
PARTISTE A 26 DE ABRIL, APÓS TERES COMEMORADO O DIA MAIS FELIZ DA TUA VIDA... O DA REVOLUÇÃO!
AGORA RESTA-ME CHORAR, PORQUE A SAUDADE É INFINITA!
CONFORME VIVESTE... COM CONVICÇÃO E DETERMINAÇÃO...
ASSIM MORRESTE... SEM VACILAR! Posted by Picasa

A MINHA MÃE

"Poema à mãe" Eugénio de Andrade

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque
já não sou o retrato adormecido no fundo dos teus olhos!
Tudo porque
tu ignoras que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque
perdi as rosas brancas que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me?
-, às vezes ainda sou o menino que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração rosas tão brancas como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes!
- a noite é enorme e todo o meu corpo cresceu...
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

26.4.06

JAIME GRALHEIRO... O RESISTENTE!



Jaime Gralheiro: o Teatro Resistente

Jaime Gralheiro: o homem e a obra


2 - Bibliografia do dramaturgo - tábua cronológica[1]
1949 – Tentativa importante: Feia, a primeira peça escrita antes de ter assistido verdadeiramente a um espectáculo teatral; publicada na revista “Inicial” do Colégio João de Deus, Porto.

1962 – Epifânio Lacerda: peça mais tarde publicada com o título Paredes Nuas; representada em 1964 pelo grupo “Aurora da Liberdade”, de Matosinhos.

1963 – Belchior: peça representada por várias colectividades depois do 25 de Abril de 1974.

1964 - Ramos Partidos: publicada com as duas peças anteriores num livro editado pelo autor, em 1967, sob o título genérico de Teatro; embora ensaiada, foi uma peça proibida pela censura[2].

1964 – Farruncha: peça infantil representada inúmeras vezes por vários grupos de teatro, de colectividades e escolares, inclusive; publicada em 1975 pelo F.A.O.J..

1967/68 – O Fosso: peça publicada em 1972 pelo “Jornal do Fundão”, como n.º 1 da sua Colecção “Cena Actual”; representada

clandestinamente antes do 25 de Abril de 1974 por um grupo de amadores dos arredores do Porto e por várias colectividades depois desta data, concretamente pelo “Teatro Experimental do Barreiro”;

peça proibida pela censura, deu origem a uma “participação-crime” por falta de respeito às Forças Armadas; o processo foi arquivado.

1973 – Na Barca com Mestre Gil : peça publicada em 1978 pela Editorial Caminho; representada pelo Cénico após o 25 de Abril e por muitos outros grupos de teatro escolares e de amadores (“Teatro Construção” de Joane, C.I.T.E.C. de Montemor-o-Velho, entre outros). Na Barca Com Mestre Gil era um título e um estratagema para ludibriar a censura, mas acabou por ser o último texto integralmente proibido pelo “Exame Prévio” vigente até à “Revolução dos Cravos”. É, por isso, um caso “histórico” [3]. Constitui esta peça interessante material didáctico para a introdução ao estudo de Gil Vicente nas escolas.

1975 – Arraia Miúda: peça representada pelo Cénico, pelo T.E.U.C. em 1976, pelo T.E.C. em 1985 e por vários outros grupos de amadores; publicada pela Editorial Inova em 1977; é uma obra com virtualidades pedagógico-didácticas para motivação ao estudo de Fernão Lopes no Ensino Secundário.

1976 – D. Beltrão de Rebordão e D. Estela Barbela: peça infanto-juvenil, ainda inédita em livro; representada pelo Cénico em 1979/80.

1977 – O Homem da Bicicleta: dramatização do romance de Manuel Tiago “O Homem da Bicicleta”, foi levada ao palco pelo Cénico em 1978 e publicada pela Sociedade Portuguesa de Autores em 1980.

1978 – Vieram para Morrer : tendo recebido o 3º prémio do Concurso de Peças de Teatro Inéditas para espectáculo inteiro promovido pela Secretaria de Estado da Cultura, este texto em três actos foi publicado pela Moraes Editores em 1980, com patrocínio da SEC.

1978 – Lafões é um Jardim: escrita da primeira versão do texto, “uma revista de carácter regional”, refundida em 1991, representada pelo Cénico no ano seguinte; peça inédita em livro.

1980 – Onde Vaz, Luís?: peça representada, numa encenação de Carlos Avillez, pelo T.E.C. ( “Teatro Experimental de Cascais”) em 1981, obteve grande sucesso em vários pontos do país e no Brasil; representada também pelo Cénico em 1993, numa encenação do autor, e ainda pelo “Teatro Construção” de Joane; obra publicada pela Editorial Vega em 1983.

1982 – Landarilho, um Seu Criado: peça ainda inédita, em livro e em palco, é uma adaptação da novela seiscentista “Lazarilho de Tormes”, transpondo para o nosso quotidiano as vigarices pícaras daquela figura.

1985 – Comadres ou Quem É Que É Afinal?: monólogo integrado no espectáculo da “Comuna” “Farsa Você Mesmo” em 1986.

1986 – O Grande Circo Ibérico: peça distinguida com o primeiro prémio do concurso do C.I.T.A.P./Amadora em 1989, editada em Março de 1998 pela Sociedade Portuguesa de Autores/ D. Quixote.

1987 – A Longa Marcha Para o Esquecimento: peça escrita a pedido do C.E.T.A. de Aveiro, pelo qual foi representada e publicada em 1988/89.

1989 – Serão para Trabalhadores?: é uma comédia sobre os anos 50/ 60, esta peça ainda inédita; foi encomendada por José de Oliveira Barata para o grupo Bonifrates de Coimbra; obteve uma menção honrosa do C.I.T.E.P. / Amadora.

1989 – O Soldado João : transposição cénica do conto infantil de Luísa Ducla Soares com o mesmo título, mantém-se inédita.

1990 – Por Mares Nunca Dantes Navegados: Jaime Gralheiro participou nesta série televisiva com os seguintes textos insertos no primeiro episódio: “Na Taverna do Mal Cozinhado”, “Na corte de D. João I”, “Camões Toma Contacto com os Seus Heróis” e “ Fernão Mendes Pinto e o Pirata Coja Acém”.

1990 – Minha Loucura Outros Que a Tomem: série televisiva que se mantém inédita.

1990 – “Sketch” O S. Pedro Já se Acabou?: peça alegórica aos santos populares, representada pelo Cénico no mesmo ano.

1991 – Lafões é um Jardim: re-escrita da peça que o Cénico levaria ao palco no ano seguinte.

1991 – Amor de Pedra: peça didáctico-infantil, também inédita.

1992 – Era Uma Vez um Coração: teatralização de um texto didáctico do Professor Políbio Serra e Silva, representada pelo Cénico/Infantil, inédita em livro.

1995 – CO-UM-NI-CA-ÇÃO! : texto ainda inédito que o autor apelida de “brincadeira infantil”.

1995 – É(h) Meu! : peça para adolescentes, representada pelo Cénico/Juvenil em 1995/96; publicada em 1998 pela S.P.A./D. Quixote no mesmo volume de O Grande Circo Ibérico.

1995 – Redacção, a convite de Isabel Silvestre, do guião que serviu de suporte ao espectáculo O Canto da Terra, do “Grupo de Trajes e Cantares de Manhouce”, em colaboração com o Cénico, apresentado em várias localidades do país, incluído no programa de celebração do 75º aniversário da S. P. A., serviu de “pivot” ao programa “Portugal Português” da T. V. I..

1995 – O Principezinho: transposição cénica da obra homónima de Antoine de Saint-Éxupery ensaiada pelo Cénico/Infantil em 1996.

1996 – Eureka! – Ou A Alegria da Descoberta: peça infanto-juvenil, mantém-se inédita, embora tenha sido encenada pelo Cénico/Juvenil.

1997 – Graças e Desgraças ( na Corte) d`El-Rei Tadinho: peça infantil resultante da teatralização do texto homónimo de Alice Vieira, em ensaios no Cénico/Juvenil.

1997 – Na Barca com Mestre Gil: 2ª versão da peça; revista e actualizada, foi publicada em Março de 1999 numa edição conjunta do Sindicato dos Professores da Região Centro e da Associação dos Professores de Viseu; o Cénico levou-a ao palco nos primeiros meses deste mesmo ano.

1999 – Arraia Miúda: revisão do texto em Janeiro deste ano; publicada a sua 2ª edição no mesmo volume da peça sua antecessora, que acabamos de mencionar.



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[1] Baseámo-nos, fundamental mas não exclusivamente, no Curriculum Vitae do Autor. Igualmente essenciais foram as informações recolhidas na sua já citada História do Cénico.

[2] Segundo depoimento de um dos seus fundadores, José-Júlio Fino, a quem agradecemos, durante longos meses, em 1964/65, o CETA ( Círculo Experimental de Teatro de Aveiro) ensaiou a peça Ramos Partidos, com a presença de Jaime Gralheiro que a esta cidade se deslocava três vezes por semana ( o IP5 levaria ainda 20 anos a construir !...). Gralheiro desempenharia o papel de “Apresentador”, figura prevista no texto por si escrito; a proibição pela censura motivou o fim dos ensaios, “com muito desgosto e desilusão de todos”.

O CETA, que este ano comemora o seu 40º aniversário, em 1966, ano da aprovação dos estatutos e da designação do grupo pelo Governo Civil, veria a sua designação expurgada do termo “Experimental”, tendo recuperado o nome original depois do 25 de Abril.

[3] Cf GRALHEIRO, Jaime, História do Cénico, op. cit., pp. 24-29 e REBELLO, Luiz Francisco, Combate Por Um Teatro de Combate, Lisboa, Seara Nova, 1977, pp. 38-39

24.4.06

ERA UMA VEZ UM PAÍS


AS PORTAS QUE ABRIL ABRIU

Era uma vez um país

onde entre o mar e a guerra

vivia o mais infeliz

dos povos à beira-terra.



Onde entre vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

um povo se debruçava

como um vime de tristeza

sobre um rio onde mirava

a sua própria pobreza.


Era uma vez um país

onde o pão era contado

onde quem tinha a raiz

tinha o fruto arrecadado

onde quem tinha o dinheiro

tinha o operário algemado

onde suava o ceifeiro

que dormia com o gado

onde tossia o mineiro

em Aljustrel ajustado

onde morria primeiro

quem nascia desgraçado.


Era uma vez um país

de tal maneira explorado

pelos consórcios fabris

pelo mando acumulado

pelas ideias nazis

pelo dinheiro estragado

pelo dobrar da cerviz

pelo trabalho amarrado

que até hoje já se diz

que nos tempos do passado

se chamava esse país

Portugal suicidado.


Ali nas vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

vivia um povo tão pobre

que partia para a guerra

para encher quem estava podre

de comer a sua terra.


Um povo que era levado

para Angola nos porões

um povo que era tratado

como a arma dos patrões

um povo que era obrigado

a matar por suas mãos

sem saber que um bom soldado

nunca fere os seus irmãos.


Poema de José Carlos Ary dos Santos

Julho - Agosto 1975. In 'José Carlos Ary dos Santos - Obra Poética'

Edições AVANTE!

Dia Mundial da Poesia

Há 3 anos o meu pai escreveu... No dia Mundial da Poesia, uma passagem discreta: VEM ACONTECER Tardo Na tarde E este entardecer Ta...