26.12.08

A MINHA MÃE, O NATAL E O CRAVO VERMELHO


Neste Natal, mais uma vez se cumpriu a tradição.
Rumámos à santa terrinha para, pelo menos uma vez por ano, estarmos todos juntos.
Quando cheguei à Nossa Casa vi que os vasos onde a minha mãe plantara os cravos há quase vinte e dois anos, não estavam lá em cima, na varanda.
Continuavam na rua, mas à entrada de casa. As ervas daninhas já os tinham invadido. Tinham mau aspecto...

Nada comparado com o cuidado que a minha mãe lhes dedicava: eram os cravos da Leonor, minha filha, dizia ela, por ter ali estacado os pézinhos das flores que os amigos me tinham oferecido em Abril de 1987, ainda na maternidade.
Certo é que perto do dia vinte e três de Abril os cravos floriam, como a comemorar o nascimento da pequenita, hoje mulher.
Inevitavelmente, sempre que isso acontecia, a minha mãe telefonava-me e dáva-me a boa nova:
- Os cravos da Leonor já abriram.
Fiquei um pouco irritada por os vasos não estarem cuidados, nem colocados onde era costume... na varanda.
Desde a morte da minha mãe, imagino aquela casa "parada" no tempo... caprichos meus!

Quando entrei olhei para o cimo da escadaria e mais uma vez visualizei a minha mãe: ali, no cimo, ansiosa com tudo: a viagem, a vontade de nos beijar, abraçar, a hora do jantar... sei lá que mais.
O casaco de malha grossa, mesclado, onde o cor-de-rosa sobressaía, sempre pelas costas, abotoado só no primeiro botão, como se de um xaile se tratasse. Nos pés os chinelinhos de trapo.

Nada combinava com a beleza dela, nem com o cabelo arranjado e as mãos cuidadas... Já para não falar dos cuidados que tinha com a pele.
Era uma senhora!

Mas, nestes dias de azáfama, vestia-se assim:
- É mais prático e confortável,dizia-nos.

Subi a escadaria e como de costume, discretamente travei ali o passo... o tempo suficiente para a beijar.

À mesa éramos dezassete. Faltaram três sobrinhos.
O lugar da minha mãe passou a ser ocupado por uma tia, irmã do meu pai.
A noite passou a correr.

O tio Tinó mais uma vez "encarnou" o Pai Natal.
Este ano sem fato, mas com um grande nariz de palhaço vermelho que a Ritinha, minha nora levou e, na cabeça uma bandolete com hastes de rena.
UMA RISOTA!
Família divertida!

Pouco a pouco, a sala foi-se esvaziando... o cansaço apoderava-se de nós e lá nos íamos despedindo:
- Até amanhã...

No dia seguinte, já perto da hora do almoço, eu desci as escadas para ir até ao jardim.
O sol a isso convidava.

Mal abri a porta para sair vi um cravo vermelho aberto, a despontar das ervas daninhas do vaso.

Estranhei... Cheguei a puxá-lo da terra... seria verdadeiro? Numa família de brincalhões nunca se sabe...

Mas era VERDADEIRO!!!!
UM CRAVO VERMELHO NO DIA 25 DE DEZEMBRO????? Ali na rua?? Com aquele frio???

Calei-me.
Engoli em seco.
Afastei-me devagar, sem nunca tirar os olhos do cravo... Estava confusa.
De repente, a minha irmã sai também de casa e vê o mesmo que eu. E a Quicas que sempre teve o "dom" de interpretar "coisas", chamou-me em voz alta e disse-me feliz:

- Bebé, a mamã está ali!

OBRIGADA MÃE!

17.4.08

PORQUE ESTAMOS EM ABRIL... RELEMBREMOS AOS MAIS NOVOS...


A 1ª senha, para o início das operações militares a desencadear pelo Movimento das Forças Armadas, foi dada por João Paulo Dinis aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa: «Faltam cinco minutos para as vinte e três horas. Convosco, Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74, E Depois do Adeus ...».


A 2ª senha, para continuação do golpe foi dada pela canção Grândola, Vila Morena, de José Afonso, gravada por Leite de Vasconcelos e posta no ar por Manuel Tomás, no programa Limite da Rádio Renascença, à meia-noite e vinte, sendo antecedida pela leitura da sua primeira quadra.
Grândola, Vila Morena foi composta como homenagem à "Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense", onde no dia 17 de Maio de 1964, «Zeca» Afonso actuou.
Depois, fez-se a leitura de poemas da autoria de Carlos Albino, jornalista do República e colaborador naquele programa, que, a pedido de Álvaro Guerra e do comandante Almada Contreiras, tinha ficado incumbido de enviar senhas para sincronizar o golpe do MFA.
Comunicado do MFA do dia 25 de Abril de 1974 às 04:20hAqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas.As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas, nas quais se devem conservar com a máxima calma. Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal para o que apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo.Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica, esperando a sua acorrência aos hospitais, a fim de prestar a sua eventual colaboração que se deseja, sinceramente, desnecessária

Comunicado do MFA do dia 25 de Abril de 1974 às 14:30hAqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas.Pretendendo continuar a informar o País sobre o desenrolar dos acontecimentos históricos que se estão processando, o Movimento das Forças Armadas comunica que as operações iniciadas na madrugada de hoje se desenrolam de acordo com as previsões, encontrando-se dominados vários objectivos importantes de entre os quais de citam os seguintes:- Comando da Legião Portuguesa- Emissora nacional- Rádio Clube Português- Radiotelevisão Portuguesa- Rádio Marconi- Banco de Portugal- Quartel-General da Região Militar de Lisboa- Quartel-General da Região Militar do Porto- Instalações do Quartel-Mestre-General- Ministério do Exército, donde o respectivo Ministro se pôs em fuga- Aeroporto da Portela- Aeródromo Base n.º 1- Manutenção Militar- Forte de PenicheS. Ex.ª o Almirante Américo Tomás, S. Ex.ª o Prof. Marcelo Caetano e os membros do Governo encontram-se cercados por forças do Movimento no quartel da Guarda Nacional Republicana, no Carmo, e no Regimento de Lanceiros 2 tendo já sido apresentado um ultimato para a sua rendição.O Movimento domina a situação em todo o País e recomenda, uma vez mais, a toda a população que se mantenha calma. Renova-se, também, a indicação já difundida para encerramento imediato dos estabelecimentos comerciais, por forma a não ser forçoso decretar o recolher obrigatório.Viva Portugal!

Dia Mundial da Poesia

Há 3 anos o meu pai escreveu... No dia Mundial da Poesia, uma passagem discreta: VEM ACONTECER Tardo Na tarde E este entardecer Ta...