12.11.11

COMADRES

Local: chafariz de aldeia. Chega uma mulher do povo com um caneco na cabeça. Vem muito apressada e diz:

Comadres,

Deixai-me passar à frente,

Eu vos peço por favor,

Porque esta vida da gente

É um horror!

Trago o coração na boca

De tanto correr, correr...

Será isto coisa pouca?

Deixar em casa no berço o mais pequeno

E os outros dois maiorzitos,

Afogados em baba e ranho,

A chorar como cabritos !

As vacas andam no feno

E as ovelhas, em rabanho,

Andam a pastar na horta,

Que fica junto da porta,

Como se no monte fora!

Comadres, tenho já de me ir embora,

Pois deixei o lume aceso

E o peru que estava preso

Saltou para o curral do porco

Que me deita abaixo a casa

De tanto fossar, fossar...

Por tudo isto vos peço


Deixai-me à frente passar

E encher o caneco, sem tardança.

Posso? Posso?

                      (Põe o caneco a encher)

Oh que rica vizinhança


Deus Nosso Senhor me deu!

Eu vos juro que no Céu

Tereis paga bem maior.

             E agora, enquanto o caneco toma a água

             Quero contar-vos a mágoa

             De um mulher que eu cá sei!

E não dizeis: conta! conta!

Oh que gente esta! Que afronta!

Que nem quer saber, sequer,

Um pouco da vida alheia!

Puxanar é um prazer!...

Por isso eu digo e redigo

Que tenha cá p’ra comigo

Que esta de vir à fonte

É uma grande invenção.

É o tempo de falarmos,

De umas com as outras estarmos,

             É a nossa televisão!

Por isso, quando o governo

Não nos põe em casa a água

E muito menos o esgoto,

Defende esta tradição,

Defende esta tradição!

             E, por isso, tem meu voto!

                                (vai ver o caneco)

Ai! Já está cheio! Cá me vou!...

                                ( põe o caneco à cabeça)

Mas antes de me ir à minha,

Sempre quero perguntar-vos:

Ouviste contar aquela do Zé Galo

Que se põe em toda e qualquer galinha?

Vai p’rá í uma falarota!


Seja velha ou garota,

A todas salta na crista.

Dizem que nenhuma escapa!

                                (  Poisa o caneco na borda do chafariz)

             Pois outro dia na Lapa,

             Quando eu com o gado andava,

             Me apareceu esse Diabo,

Só p’ra ver se me atentava!



Era no tempo da giestas,

Quando o Maio puxa ao cio,

O cuco e rola cantava

E nem vivalma passava

Lá nos cimos do Mesio...

             Nisto, ele chega, olha e começa:

             “Olá flor da revessa!”

E eu que muito bem sabia

Que o que ele queria

Era conversa,

Bico mudo: nem palavra!

Só para ver o que ele dizia...

             Mas ele não disse nada!

             Em vez disso, deita a mão,

             Prende as minhas com as dele

             E esmaga-me o coração,

             Contra o peito e contra a pele!



Ai! Filhas! Fiquei sem pinga!

Deu-me uma quebreira tal

Que comecei a tremer...

             E tremia! E tremia!...

Mas nem um dedo mexia,

Só p’ra ver o que ele fazia!...

             E eu vos juro e trejuro,

             Pelas cinco chagas de Cristo,

             Que não vi ou que, então, fez,

             Nem sequer, tanto como isto!

Senti, sim, um furacão,

Um turbilhão, terramoto,

Desabando sobre mim

E o meu corpo meio morto,

Deslizando para o chão,

Como se fora uma cama

De alecrim e rosmaninho.

             Ai filhas! E que cheirinho!...



Que é dos gritos que eu não dei?

Que é dos gestos que eu não fiz?

Ai o furor que eu tomei

E me veio da raiz!



O meu corpo ardia em chamas,

Como um fogo de Setembro,

Posto por mãos criminosas!

Oh como toda eu me lembro!...

(Quando me lembro e relembro!)

E me encolhia e gemia...

                      e gemia e me encolhia...

Só p’ra ver o que ele fazia!



                      E ele...fez tudo quanto queria!



Finalmente levantou-se,

Quando eu cansada já estava

E não podia mais nada,

Nem com uma gata pelo rabo!...



Ah! Foi então que aquele Diabo

Ouviu desta boca santa

O que nunca ninguém disse!

                                Ai o que eu disse, comadres!

Ninguém o pode pensar,

Nem sonhar! Ninguém o sonha!...



Umh! Se todas fossem como eu

             Não havia sob o céu

Tanta falta de vergonha!...



E riem-se?!

Pois não sei porque é tal rir!

Só porque eu dei do que é meu

A quem mo soube pedir,

Já sou?...



Se assim é,

Como havemos de chamar

A uns  senhores que p’rá í há

Que dão o cu à direita

E fazem festa à esquerda?



             E toda a gente os respeita!



Sabem que mais?

                                Bardamerda!



                                (Faz o manguito e sai. Volta atrás para levar o caneco)

            



                      S. P. Sul, 1985



                      J. Gralheiro



( Integrado no espectáculo da COMUNA – Lisboa: “Farsa você mesmo!” – 1986)




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