21.3.17

Dia Mundial da Poesia

Há 3 anos o meu pai escreveu...
No dia Mundial da Poesia, uma passagem discreta:

VEM ACONTECER
Tardo
Na tarde
E este entardecer
Tarda em me trazer
A alma da tarde
Que me dá prazer.
Não tardes mais
Vem acontecer.
Jaime Gralheiro

A Revolução de Abril contada às crianças - Jaime Gralheiro

ERA UMA VEZ UM PAÍS
Era uma vez um país,
que tinha como matriz a forma de um caixão.
Nesse país de terror,
havia como senhor
um homem sem coração…
Um tirano, um opressor!
Só quem queria o que ele queria,
e pensava como ele,
e como ele, também fazia
é que tinha a regalia…
de ser gente… os outros não!
Tratados como vassalos, muito pior que cavalos
Ainda abaixo de cão!




Para ter tudo na mão,
esse monstro de mil olhos,
de mil ouvidos, mil traições,
entrava em qualquer lugar
para ver, ouvir, escutar…
E quer fosse no emprego,
em casa de cada um,
no café, na escola, ou praça…
Sempre o olho da desgraça,
o seguia e perseguia,
de modo que quem dizia
mal da sorte, ou do patrão,
altas horas, ou de dia,
ía parar à prisão.
Meses, anos, uma vida…
Humilhado e torturado,
donde só às vezes saía,
pela única saída:
embrulhado num lençol,
atirado à cova,
noite fora e em segredo!

Era um país de “carneiros,”
sob o chicote do medo…
Oprimidos, censurados,
em fila bem perfilados,
como quem pede perdão!
Trabalhavam como escravos,
do nascer ao pôr do sol.
Aos Domingos tinham missa,
à tarde futebol…
e à noite ouviam o fado.
Nesse país desgraçado,
tudo o mais era “pecado”,
mesmo sonhar acordado!
Até vestir “blue-jeans”, ter isqueiro,
ou rapaz e rapariga…
sentados numa carteira,
lado a lado.
Tudo isso era vedado
pela moral do senhor

Era tal a opressão,
era tal a violência,
ao longo de tantos anos…
Que, tomando consciência
de tantas dores, tantos danos,
as armas que guardavam
o monstro das mil traições,
e às suas ordens matavam
e às suas ordens morriam,
começaram a conspirar…
Noite fora…
com aqueles que saindo das prisões,
sempre inventaram lugares
onde não houvesse ouvidos
do monstro dos mil olhares…

 
E foi assim, vede bem
Que numa certa madrugada,
sem que o esperasse ninguém,
explodiu uma canção,
como se fora granada!
-Quem ousou gritar…
“O povo é quem mais ordena?”
Quem é a voz que acena,
fora de horas com a revolta:
-“Aqui Movimento das Forças Armadas”!
Quem é que deixou à solta,
enchendo todas as ruas,
largos, praças e vielas,
milhares de cravos a florir
no cano das espingardas?
Quem é que pôs nas varandas,
quem é que pôs nas janelas
grandes bandeiras vermelhas?

E um rio de gente inundou o país,
afogou todos os medos,
estilhaçou as algemas.
Essa voz assim o quis!
E a coragem deu as mãos,
ligou um povo de irmãos
a cantar um canto novo,
que se levanta e flutua,
vai já no meio da rua,
como chama que incendeia
a resistente candeia…
Que se fez multidão
pronta a gritar:
“O povo está com o MFA”,
“O povo está com o MFA”…
E levanta-se do chão…
enche as almas oprimidas!
- Olá!

Mas, o monsto dos mil olhos,
como um velho leão
acossado, ficou cego!
Seus mil ouvidos
Ficaram surdos e num último estrutor,
Encurralado,
O monstro disparou…
E mais uma vez matou,
um povo desarmado!
Tinha que ser assim:
assassinos até ao fim,
numa revolução de fraternidade
e amor,
cuja arma era… apenas uma flor!

Pois, esse país triste e desgraçado,
não é uma fábula não! EXISTIU!
Foi o Portugal dos vossos pais e avós!
E agora… SOIS VÓS,
que tem na mão o país novo,
sempre a construir:
o Portugal de Abril,
o Portugal do Povo,
que há-de florir…
Em cada geração que vier!
MAS CUIDADO!
Que por detrás dos escombros
desse tal Passado,
estão sempre os ombros
do velho monstro,
que renasce em cada dia
em que a Liberdade e a Democracia
São atacadas!

SENTINELAS DO FUTURO TEREIS DE SER,
PARA QUE O VELHO MONSTRO
DE MIL OLHOS, MIL OUVIDOS E MIL MÃOS
NÃO VOLTE A RENASCER!

Jaime Gralheiro
Março de 1999








12.11.11

COMADRES

Local: chafariz de aldeia. Chega uma mulher do povo com um caneco na cabeça. Vem muito apressada e diz:

Comadres,

Deixai-me passar à frente,

Eu vos peço por favor,

Porque esta vida da gente

É um horror!

Trago o coração na boca

De tanto correr, correr...

Será isto coisa pouca?

Deixar em casa no berço o mais pequeno

E os outros dois maiorzitos,

Afogados em baba e ranho,

A chorar como cabritos !

As vacas andam no feno

E as ovelhas, em rabanho,

Andam a pastar na horta,

Que fica junto da porta,

Como se no monte fora!

Comadres, tenho já de me ir embora,

Pois deixei o lume aceso

E o peru que estava preso

Saltou para o curral do porco

Que me deita abaixo a casa

De tanto fossar, fossar...

Por tudo isto vos peço


Deixai-me à frente passar

E encher o caneco, sem tardança.

Posso? Posso?

                      (Põe o caneco a encher)

Oh que rica vizinhança


Deus Nosso Senhor me deu!

Eu vos juro que no Céu

Tereis paga bem maior.

             E agora, enquanto o caneco toma a água

             Quero contar-vos a mágoa

             De um mulher que eu cá sei!

E não dizeis: conta! conta!

Oh que gente esta! Que afronta!

Que nem quer saber, sequer,

Um pouco da vida alheia!

Puxanar é um prazer!...

Por isso eu digo e redigo

Que tenha cá p’ra comigo

Que esta de vir à fonte

É uma grande invenção.

É o tempo de falarmos,

De umas com as outras estarmos,

             É a nossa televisão!

Por isso, quando o governo

Não nos põe em casa a água

E muito menos o esgoto,

Defende esta tradição,

Defende esta tradição!

             E, por isso, tem meu voto!

                                (vai ver o caneco)

Ai! Já está cheio! Cá me vou!...

                                ( põe o caneco à cabeça)

Mas antes de me ir à minha,

Sempre quero perguntar-vos:

Ouviste contar aquela do Zé Galo

Que se põe em toda e qualquer galinha?

Vai p’rá í uma falarota!


Seja velha ou garota,

A todas salta na crista.

Dizem que nenhuma escapa!

                                (  Poisa o caneco na borda do chafariz)

             Pois outro dia na Lapa,

             Quando eu com o gado andava,

             Me apareceu esse Diabo,

Só p’ra ver se me atentava!



Era no tempo da giestas,

Quando o Maio puxa ao cio,

O cuco e rola cantava

E nem vivalma passava

Lá nos cimos do Mesio...

             Nisto, ele chega, olha e começa:

             “Olá flor da revessa!”

E eu que muito bem sabia

Que o que ele queria

Era conversa,

Bico mudo: nem palavra!

Só para ver o que ele dizia...

             Mas ele não disse nada!

             Em vez disso, deita a mão,

             Prende as minhas com as dele

             E esmaga-me o coração,

             Contra o peito e contra a pele!



Ai! Filhas! Fiquei sem pinga!

Deu-me uma quebreira tal

Que comecei a tremer...

             E tremia! E tremia!...

Mas nem um dedo mexia,

Só p’ra ver o que ele fazia!...

             E eu vos juro e trejuro,

             Pelas cinco chagas de Cristo,

             Que não vi ou que, então, fez,

             Nem sequer, tanto como isto!

Senti, sim, um furacão,

Um turbilhão, terramoto,

Desabando sobre mim

E o meu corpo meio morto,

Deslizando para o chão,

Como se fora uma cama

De alecrim e rosmaninho.

             Ai filhas! E que cheirinho!...



Que é dos gritos que eu não dei?

Que é dos gestos que eu não fiz?

Ai o furor que eu tomei

E me veio da raiz!



O meu corpo ardia em chamas,

Como um fogo de Setembro,

Posto por mãos criminosas!

Oh como toda eu me lembro!...

(Quando me lembro e relembro!)

E me encolhia e gemia...

                      e gemia e me encolhia...

Só p’ra ver o que ele fazia!



                      E ele...fez tudo quanto queria!



Finalmente levantou-se,

Quando eu cansada já estava

E não podia mais nada,

Nem com uma gata pelo rabo!...



Ah! Foi então que aquele Diabo

Ouviu desta boca santa

O que nunca ninguém disse!

                                Ai o que eu disse, comadres!

Ninguém o pode pensar,

Nem sonhar! Ninguém o sonha!...



Umh! Se todas fossem como eu

             Não havia sob o céu

Tanta falta de vergonha!...



E riem-se?!

Pois não sei porque é tal rir!

Só porque eu dei do que é meu

A quem mo soube pedir,

Já sou?...



Se assim é,

Como havemos de chamar

A uns  senhores que p’rá í há

Que dão o cu à direita

E fazem festa à esquerda?



             E toda a gente os respeita!



Sabem que mais?

                                Bardamerda!



                                (Faz o manguito e sai. Volta atrás para levar o caneco)

            



                      S. P. Sul, 1985



                      J. Gralheiro



( Integrado no espectáculo da COMUNA – Lisboa: “Farsa você mesmo!” – 1986)




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21.12.10

QUANDO O PAI FEZ 80 ANOS DE JUVENTUDE

MANIFESTO PRÓ-CANETA(Ana Bebé Gralheiro)

Nada substitui uma caneta.
Pode ser cara, barata, de ouro, latão ou prata
De carga, aparo e tinteiro
De uso, ou colecção
Elitista ou do “pobão”
Para ricos, ou sem dinheiro
Uma caneta, é sempre isso
E  tudo o mais…
Imaginação, arte e compromisso.

Imperatriz da escrita
Elegante e com estilo
Conquista folhas de papel em  branco
Alarga impérios de ideais
Que ninguém lê
Ou que é publicado
Em livros, revistas  e  jornais...
E quem sabe,
Em muito mais.

Um computador é uma  imitação da caneta
Um sucedâneo vulgar
Que não tem a beleza no gesto…
do deslizar.
Isento do bailado
da mão no  papel,
que ora escreve, ora o risca
por vezes  rasgado
maltratado, amarrotado...
.








A caneta é intemporal
Independente de gigas caprichosos
Que ora obedecem, ora são manhosos.…
A caneta é simples
É papel, poesia, história,
imaginação incontida.
Paixão, revolta, tortura
Vida, dor e loucura
Companheira dedicada
Das recordação de quem escreve…
imagens com memória…
Concentração, sobrancelha arqueada
Em casa, na praia…para depois se ouvir
A leitura entusiasmada.
Tempestade, calmaria, obra concluida
Mais um filho que nasceu: partilho-o, mas é só meu.





Tudo isto para vos comunicar…
Quão extraordinário é receber uma caneta de presente
Faz-nos sentir maiores
Gente diferente.
Ninguém discorda,
Ninguém diverge.
A família une-se
É unânime
Há consenso
Aclamação
Por isso é imperdoável
Que haja alguém que diga...
Uma caneta?
Oh, não!

8.7.10

O PAI FAZ ANOS

MANIFESTO PRÓ-CANETA(Ana Bebé Gralheiro)

Nada substitui uma caneta.
Pode ser cara, barata, de ouro, latão ou prata
De carga, aparo e tinteiro
De uso, ou colecção
Elitista ou do “pobão”
Para ricos, ou sem dinheiro
Uma caneta, é sempre isso
E tudo o mais…
Imaginação, arte e compromisso.

Imperatriz da escrita
Elegante e com estilo
Conquista folhas de papel em branco
Alarga impérios de ideais
Que ninguém lê
Ou que é publicado
Em livros, revistas e jornais...
E quem sabe,
Em muito mais.

Um computador é uma imitação da caneta
Um sucedâneo vulgar
Que não tem a beleza no gesto…
do deslizar.
Isento do bailado
da mão no papel,
que ora escreve, ora o risca
por vezes rasgado
maltratado, amarrotado...
.








A caneta é intemporal
Independente de gigas caprichosos
Que ora obedecem, ora são manhosos.…
A caneta é simples
É papel, poesia, história,
imaginação incontida.
Paixão, revolta, tortura
Vida, dor e loucura
Companheira dedicada
Das recordação de quem escreve…
imagens com memória…
Concentração, sobrancelha arqueada
Em casa, na praia…para depois se ouvir
A leitura entusiasmada.
Tempestade, calmaria, obra concluida
Mais um filho que nasceu: partilho-o, mas é só meu.





Tudo isto para vos comunicar…
Quão extraordinário é receber uma caneta de presente
Faz-nos sentir maiores
Gente diferente.
Ninguém discorda,
Ninguém diverge.
A família une-se
É unânime
Há consenso
Aclamação
Por isso é imperdoável
Que haja alguém que diga...
Uma caneta?
Oh, não!

1.12.09

JAIME GRALHEIRO E O SEU SANTO DE ELEIÇÃO - S. MACÁRIO

Jaime Gralheiro - Memórias de infância
S. Pedro do Sul - MACIEIRA DE HÁ 70/80 ANOS
(Revisitação com gente lá dentro)

Falo de Macieira de Sul (S. Pedro do Sul), a aldeia mais serrana da freguesia, nas faldas do monte S. Macário, a deslado do Soito, Posmil e Lageosa, já pertencentes à freguesia de S. Martinho (das Moitas). Falo do lugar onde nasci e se me ficou inteiro na memória, desde que, aos nove anos, de lá desandei para (praticamente) nunca mais lá voltar. Falo de Macieira virada a sul/nascente, com as costas bem protegidas dos ventos norte pelo gabinardo do santo protector a que se encosta. Falo da varanda sobre o vale do Sul, com o lugar dos Pesos, do outro lado, em frente, por onde a gente se guiava no virar das águas: a sombra a varrer os Pesos.
Falo de Macieira, onde no centro se erguia a morada de casas dos senhores da terra que viviam em Nespereira (Alta) e ali vinham, apenas, de vez enquando, receber as rendas. Agora, falo dessas casas com paredes em porpianho e cobertas com telha marselha; mais lá para adiante falarei das outras que, com raras excepções, eram cobertas de negras e pesadas lousas, com paredes de pedra miúda presa por argamassa de barro, à boa moda medieval.
Falo de Macieira: vou ao fundo do lugar, ao caminho que vinha do Salgueiro, quando este chegava às primeiras casas que eram as do Serraco (três ou quatro a mourejarem lá por Lisboa; aqui, a tomar conta das casas, apenas uma ou duas velhotas). Falo do tio Adelino Rosa, cuja casa vinha logo a seguir e tinha a porteira em frente da casa do tio José Grande (o carpinteiro da aldeia que, quando não tinha lápis, riscava com a ponta do dedo molhada em cuspe). Lembro-me que o caminho continuava e vinha dar às casas dos do Arouca (o tio Joaquim – meu avô que era irmão do tio Zé Grande e vivia com o filho, o ti Zé-'rouca).
Lembro-me de que, junto à casa de um e de outro, esse caminho ia dar a um cruzamento: a primeira saída, à direita, ia para as terras, a segunda subia, de esguelha, para o chafariz do meio da povoação que se chamava do fundo, passando pela casa do tio António Vitôrio (que eu já nem conheci, mas apenas os filhos: um deles veio a ser meu tio por ter casado com uma irmã de meu pai), pela casa dos do Ferreiro, com quem meu pai tinha uma zanga de morte (a razão eu nunca a soube; ou soube?), pela casa da tia Glória Ribeiro e pela da casa da Liberata (que vivia sozinha e gostava de fazer favores a quem lhos sabia pedir); sem esquecer a casa da Tia Nazaré do Sapateiro, gente boa, que recebeu, por favor, num casebre que tinha ao lado da casa, meus pais que então viviam com muita dificuldade. Foi nesse casebre que eu nasci. (O menino Jesus nasceu num curral. Ou foi o deus Mitra?).
Se, no tal cruzamento, virássemos à esquerda íamos passar à frente da casa do Pedro (um homenzito que, como a Liberata, vivia sozinho, só que não fazia favores desses, antes ensinava a “doutrina” à garotada, a pedido e paga dos pais (que a não sabiam ou não tinham tempo nem paciência para tais ensinamentos). Lembro-me de que em frente à casa do Pedro era a casa dos do Correia e, um pouco acima, na curva para a direita, era a casa do tio Adelino do Gomes. Depois, seguindo pela rua que ia dar, por esse lado, ao sobredito chafariz do fundo, eram as casas do Sapateiro e as do Constantino e Adelino do Rosa (que retornou de Lisboa, trazendo consigo uma filha com o estranho nome de Benilde, nome este que, só muito mais tarde, voltei a encontrar no título da peça de José Régio: Benilde ou a virgem mãe, que nem ele nem ela nunca leram nem viram. Depois eram as casas do Tamanqueiro, do Mariano e dos Ritos (os mais pobres da aldeia). Junto do chafariz era a casa do Carreirancho, também conhecido por pelego por ser muito gago.
Chegados aqui, ou virávamos à esquerda para a Eira do Vale, passando em frente da morada de casas dos de Nespereira, (onde havia uma larga entrada coberta, que servia de pouso ao Rolho, que ali armava a sua tenda de quinquilharia, na semana a seguir à feira de Sul, donde, todos os meses, vinha a caminho do Gafanhão, onde morava), ou seguíamos em frente, indo em direcção à saída da povoação, a nascente.
Se virávamos para a Eira do Vale, depois de passarmos a casa dos de Nespereira que nos ficava à esquerda, encontrávamos, à nossa direita, um outro fontanário (o chafariz da Eira do Vale). Era nesta eira que assentavam os do Vale. À entrada, do lado esquerdo, ficava a casa do mais velho cujo primeiro nome se me varreu e, do lado direito, a casa do Adelino (do Vale, claro). A seguir à casa do mais velho era a casa da Ti Matilde do Toca e a casa dos pais da Emília Pernisca (só me lembro do nome da filha); na borda da eira, a meio, era a casa da tia Maria do Rato e, a do fundo, a casa do tio Manuel Pereira que tinha um filho, pouco mais velho que eu, dono da gaita de beiços onde eu aprendi a tocar, aos seis anos.
Era nesta eira que se fazia o S. Macário de Macieira, na noite do sábado do último domingo de Julho; era nesta eira que se juntavam muitas centenas de romeiros que, vindos do lado sul, ali pernoitavam, dançando e cantando (bebendo e comendo e sabe-se lá que mais, naquele escuro, tão só iluminado por um ou outro gasómetro!). Foi lá que eu comprei a minha primeira gaita, marca “fado português”. Era nesta Eira que se jogava ao Entrudo, com alguns caretos, vassoiros de gibardeira a picar as pernas das moças, muita farinha, levantar de saias e gargalhada à mistura. A Eira do Vale era o àgora ou forum de Macieira.
Se continuarmos da Eira do Vale para os Currais da Fraga, vamos passar pela casa do tio Amaro que nos fica à esquerda. O tio Amaro era um bondoso velho que vivia com a Tia Charriça (mais nova do que ele) que era muito nossa amiga e nos fazia arroz com chouriça (rima e é verdade).
Se do chafariz de baixo seguíssemos em frente pelo caminho que vai para a saída da povoação, a nascente, iríamos encontrar, logo ali a dois passos, do lado direito, a casa dos do Ferro Velho e, um pouco mais adiante, do outro lado, a casa dos do Penedo e, mais à frente, do lado direito, a casa dos do Santo, onde, diziam, o S. Macário, no seu tempo, vinha pedir lume quando este se lhe apagava lá na serra. Também eu, muitas vezes, fui com uma copanha velha pedir lume às vizinhas. Só que o S. Macário, por ser santo, não precisava de copanha e levava as brasas na mão, até que se queimou quando viu as pernas de uma pastora! Quem não há-de ser crente de um santo que se queima quando vê umas boas pernas?! Eu cá sou.
Em frente da casa dos do Santo vivia o João do Amaro (filho do tio Amaro) e um pouco mais arriba, no caminho que ia para o cimo da povoação, era a casa do Rabeco e a casa da viúva do Pereira (conhecida por “brasileira”) e que foi a minha “mãe seca” por ter tido um filho mais ou menos da minha idade que me deixou nas tetas dela um resto de leite para eu me ir desmamando...
A casa da viúva do Pereira dava para um largo onde estava a caixa pública do correio e donde saía, para a direita, um caminho que ia dar ao cemitério e à capela.
Se não quiséssemos ir nem para o cemitério nem para a capela, virávamos à esquerda e passávamos em frente da casa da do Pereira e, a seguir, pela casa do Fernandes (que teve uma filha que morreu tuberculosa e até os colchões lhe queimaram, depois de morta!). Em frente à casa da viúva do Pereira era uma morada de casas. Por baixo pertenciam aos do Bordozedo e por cima, à Sr.ª. Graça que casou com o Sr. Custódio do Ferrolheiro que também veio do Brasil e abriu uma loja nos fundos da casa, logo a seguir, que ele herdou dos seus antepassados e onde havia um tear, no piso de cima, junto à cozinha.
De notar que todos os mais velhos em Macieira eram tratados por tios ou tias, menos os mais importantes que eram tratados por senhores. O Sr. Custódio era rico e tinha uma loja e a mulher nem trabalhava nas terras e até sabia ler!...
O caminho que passava em frente da loja do Sr. Custódio ia para os lados da Fraga e faceava, à esquerda, com uns currais, donde saía um quelho que dava para um casinhoto onde morava uma cega (não me lembro do nome) que ganhava a vida a fiar...
O caminho donde saía o quelho seguia por debaixo de um passadiço que era a morada de um outro Bordozedo com quem meu pai também andava zangado (e dessa zanga eu sabia a razão: ele deixou que uma cabra comesse uns enxertos de meu pai e meu pai matou-lhe a cabra. E ficaram quites: zangados para sempre e pronto!).
Passado o passadiço dávamos, de frente, com uma grande porteira que vedava o quintal da casa do Santestevo, que tinha um boi de cobrição e onde eu vi, pela primeira vez (tinha uns cinco/seis anos) como se faziam os vitelos: o monstro do boi a lançar-se por sobre o dorso da vaca que se encolhia e roncava sob, enquanto o Santestevo guiava o mastro do boi para dentro da coisa da vaca que era grande e até papujava... Antes de ver o boi do Santestevo a fazer vitelos eu já estava farto de ver os carneiros a saltarem para o espinhaço das ovelhas e os chibos (que na altura do cio cheiravam tão mal!) a montarem as cabras que se ficavam à sua espera. O fornicar das espécies era tão natural como o nascer das crias. Por isso, como eu me ri, quando um dia mais tarde, me quiseram convencer de que os meninos vinham de Paris...
Depois da porteira do Santestevo vinha a casa de uma outra viúva que ficava em frente do quintal do tio Amaro, do outro lado, e tinha uma filha da minha idade com uns olhos árabes de amêndoa doce e que veio a ser a minha primeira namorada. Não me lembro dos nomes nem da mãe nem da filha, mas lembro-me daqueles olhos de amêndoa doce e de como, com a dona de tais olhos, eu brincava a cozer arroz num panelo de barro. Nunca vi um panelo que tanto arroz parisse, quando começou a ferver! Era arroz por todos os lados a sair-lhe em golfadas pela boca!
Lembro-me também de que, perto da casa da minha namorada, era a casa da Tia Casemira, a sardinheira, casada com o tio Amadeu Frade que tinha uns grandes bigodes e um burro que trazia a sardinha de Sul e, agarrado ao rabo, vinha o tio Amadeu que apanhava cada carraspana que sem a ajuda do burro não atremava com a casa.
Antes da Fraga, ainda era a casa da tia Maria do Casqueiro, que cozinhava sempre na mesma panela que nunca lavava. Minha irmã Aurora muito gostava do caldo da tia Maria do Casqueiro! Minha mãe dava-lhe um pouco de unto para ajudar ao caldo.
Depois, sim, era a Fraga, com os currais do gado da vigia e a eira dos de Nespereira, já sobre o rio que vinha das Vessadas. Junto à eira dos de Nespereira ficava a casa que meus pais construíram por suas próprias mãos e que foi inaugurada no dia do meu baptizado (tinha eu já quatro anos e fui a pé, de calções, camisinha de popeline e laço, que a minha madrinha, que era mulher de um engenheiro que trabalhava nas minas em Regoufe, fez questão em me aperaltar!). Esta casa também já tinha algumas paredes em porpianho e telha marselha, menos sobre a cozinha que era coberta com lousas.
Entre o quintal do Tio Amaro e a casa dos meus pais ficava a casa do José Correia que era o factote dos de Nespereira, sempre a caminho daquele lugar, a cheirar-lhes o cu.
Antes de chegar à casa de meus pais, havia ainda a casa de um outro Mariano que tinha uma filha (a Maria do Mariano) muito amiga da minha irmã Aurora.
Em 1937 meu pai mandou fazer uma casa nova, em frente da primeira. Nunca a habitámos. Em 1939 viemos para Sul e acabou-se Macieira (do adro, ó do adro Macieira, tu deixaste-te enganar; já não achas quem te queira...)
E vim-me embora, mas dentro de mim ficou, para sempre, o menino serrano a calcorrear os caminhos da Vida. Todos partiram dali...

Novembro de 2009

Jaime Gralheiro

P.S.: Não falo nas castanhas nem no mel, porque, na povoação, não havia castanheiros e a gente, se queria castanhas, tinha de as ir apanhar do chão no Soito ou nas Vessadas (digo do chão porque as do ar eram dos donos; por isso, de vez em quando, voava, às escondias, um troxo em direcção aos ouriços, lá em cima a rirem-se de nós; a gente acabava-lhes com o riso e ala que se faz tarde, antes que o dono aparecesse!) e do mel não me lembro.

J.G.

Dia Mundial da Poesia

Há 3 anos o meu pai escreveu... No dia Mundial da Poesia, uma passagem discreta: VEM ACONTECER Tardo Na tarde E este entardecer Ta...