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JAIME GRALHEIRO E O SEU SANTO DE ELEIÇÃO - S. MACÁRIO

Jaime Gralheiro - Memórias de infância
S. Pedro do Sul - MACIEIRA DE HÁ 70/80 ANOS
(Revisitação com gente lá dentro)

Falo de Macieira de Sul (S. Pedro do Sul), a aldeia mais serrana da freguesia, nas faldas do monte S. Macário, a deslado do Soito, Posmil e Lageosa, já pertencentes à freguesia de S. Martinho (das Moitas). Falo do lugar onde nasci e se me ficou inteiro na memória, desde que, aos nove anos, de lá desandei para (praticamente) nunca mais lá voltar. Falo de Macieira virada a sul/nascente, com as costas bem protegidas dos ventos norte pelo gabinardo do santo protector a que se encosta. Falo da varanda sobre o vale do Sul, com o lugar dos Pesos, do outro lado, em frente, por onde a gente se guiava no virar das águas: a sombra a varrer os Pesos.
Falo de Macieira, onde no centro se erguia a morada de casas dos senhores da terra que viviam em Nespereira (Alta) e ali vinham, apenas, de vez enquando, receber as rendas. Agora, falo dessas casas com paredes em porpianho e cobertas com telha marselha; mais lá para adiante falarei das outras que, com raras excepções, eram cobertas de negras e pesadas lousas, com paredes de pedra miúda presa por argamassa de barro, à boa moda medieval.
Falo de Macieira: vou ao fundo do lugar, ao caminho que vinha do Salgueiro, quando este chegava às primeiras casas que eram as do Serraco (três ou quatro a mourejarem lá por Lisboa; aqui, a tomar conta das casas, apenas uma ou duas velhotas). Falo do tio Adelino Rosa, cuja casa vinha logo a seguir e tinha a porteira em frente da casa do tio José Grande (o carpinteiro da aldeia que, quando não tinha lápis, riscava com a ponta do dedo molhada em cuspe). Lembro-me que o caminho continuava e vinha dar às casas dos do Arouca (o tio Joaquim – meu avô que era irmão do tio Zé Grande e vivia com o filho, o ti Zé-'rouca).
Lembro-me de que, junto à casa de um e de outro, esse caminho ia dar a um cruzamento: a primeira saída, à direita, ia para as terras, a segunda subia, de esguelha, para o chafariz do meio da povoação que se chamava do fundo, passando pela casa do tio António Vitôrio (que eu já nem conheci, mas apenas os filhos: um deles veio a ser meu tio por ter casado com uma irmã de meu pai), pela casa dos do Ferreiro, com quem meu pai tinha uma zanga de morte (a razão eu nunca a soube; ou soube?), pela casa da tia Glória Ribeiro e pela da casa da Liberata (que vivia sozinha e gostava de fazer favores a quem lhos sabia pedir); sem esquecer a casa da Tia Nazaré do Sapateiro, gente boa, que recebeu, por favor, num casebre que tinha ao lado da casa, meus pais que então viviam com muita dificuldade. Foi nesse casebre que eu nasci. (O menino Jesus nasceu num curral. Ou foi o deus Mitra?).
Se, no tal cruzamento, virássemos à esquerda íamos passar à frente da casa do Pedro (um homenzito que, como a Liberata, vivia sozinho, só que não fazia favores desses, antes ensinava a “doutrina” à garotada, a pedido e paga dos pais (que a não sabiam ou não tinham tempo nem paciência para tais ensinamentos). Lembro-me de que em frente à casa do Pedro era a casa dos do Correia e, um pouco acima, na curva para a direita, era a casa do tio Adelino do Gomes. Depois, seguindo pela rua que ia dar, por esse lado, ao sobredito chafariz do fundo, eram as casas do Sapateiro e as do Constantino e Adelino do Rosa (que retornou de Lisboa, trazendo consigo uma filha com o estranho nome de Benilde, nome este que, só muito mais tarde, voltei a encontrar no título da peça de José Régio: Benilde ou a virgem mãe, que nem ele nem ela nunca leram nem viram. Depois eram as casas do Tamanqueiro, do Mariano e dos Ritos (os mais pobres da aldeia). Junto do chafariz era a casa do Carreirancho, também conhecido por pelego por ser muito gago.
Chegados aqui, ou virávamos à esquerda para a Eira do Vale, passando em frente da morada de casas dos de Nespereira, (onde havia uma larga entrada coberta, que servia de pouso ao Rolho, que ali armava a sua tenda de quinquilharia, na semana a seguir à feira de Sul, donde, todos os meses, vinha a caminho do Gafanhão, onde morava), ou seguíamos em frente, indo em direcção à saída da povoação, a nascente.
Se virávamos para a Eira do Vale, depois de passarmos a casa dos de Nespereira que nos ficava à esquerda, encontrávamos, à nossa direita, um outro fontanário (o chafariz da Eira do Vale). Era nesta eira que assentavam os do Vale. À entrada, do lado esquerdo, ficava a casa do mais velho cujo primeiro nome se me varreu e, do lado direito, a casa do Adelino (do Vale, claro). A seguir à casa do mais velho era a casa da Ti Matilde do Toca e a casa dos pais da Emília Pernisca (só me lembro do nome da filha); na borda da eira, a meio, era a casa da tia Maria do Rato e, a do fundo, a casa do tio Manuel Pereira que tinha um filho, pouco mais velho que eu, dono da gaita de beiços onde eu aprendi a tocar, aos seis anos.
Era nesta eira que se fazia o S. Macário de Macieira, na noite do sábado do último domingo de Julho; era nesta eira que se juntavam muitas centenas de romeiros que, vindos do lado sul, ali pernoitavam, dançando e cantando (bebendo e comendo e sabe-se lá que mais, naquele escuro, tão só iluminado por um ou outro gasómetro!). Foi lá que eu comprei a minha primeira gaita, marca “fado português”. Era nesta Eira que se jogava ao Entrudo, com alguns caretos, vassoiros de gibardeira a picar as pernas das moças, muita farinha, levantar de saias e gargalhada à mistura. A Eira do Vale era o àgora ou forum de Macieira.
Se continuarmos da Eira do Vale para os Currais da Fraga, vamos passar pela casa do tio Amaro que nos fica à esquerda. O tio Amaro era um bondoso velho que vivia com a Tia Charriça (mais nova do que ele) que era muito nossa amiga e nos fazia arroz com chouriça (rima e é verdade).
Se do chafariz de baixo seguíssemos em frente pelo caminho que vai para a saída da povoação, a nascente, iríamos encontrar, logo ali a dois passos, do lado direito, a casa dos do Ferro Velho e, um pouco mais adiante, do outro lado, a casa dos do Penedo e, mais à frente, do lado direito, a casa dos do Santo, onde, diziam, o S. Macário, no seu tempo, vinha pedir lume quando este se lhe apagava lá na serra. Também eu, muitas vezes, fui com uma copanha velha pedir lume às vizinhas. Só que o S. Macário, por ser santo, não precisava de copanha e levava as brasas na mão, até que se queimou quando viu as pernas de uma pastora! Quem não há-de ser crente de um santo que se queima quando vê umas boas pernas?! Eu cá sou.
Em frente da casa dos do Santo vivia o João do Amaro (filho do tio Amaro) e um pouco mais arriba, no caminho que ia para o cimo da povoação, era a casa do Rabeco e a casa da viúva do Pereira (conhecida por “brasileira”) e que foi a minha “mãe seca” por ter tido um filho mais ou menos da minha idade que me deixou nas tetas dela um resto de leite para eu me ir desmamando...
A casa da viúva do Pereira dava para um largo onde estava a caixa pública do correio e donde saía, para a direita, um caminho que ia dar ao cemitério e à capela.
Se não quiséssemos ir nem para o cemitério nem para a capela, virávamos à esquerda e passávamos em frente da casa da do Pereira e, a seguir, pela casa do Fernandes (que teve uma filha que morreu tuberculosa e até os colchões lhe queimaram, depois de morta!). Em frente à casa da viúva do Pereira era uma morada de casas. Por baixo pertenciam aos do Bordozedo e por cima, à Sr.ª. Graça que casou com o Sr. Custódio do Ferrolheiro que também veio do Brasil e abriu uma loja nos fundos da casa, logo a seguir, que ele herdou dos seus antepassados e onde havia um tear, no piso de cima, junto à cozinha.
De notar que todos os mais velhos em Macieira eram tratados por tios ou tias, menos os mais importantes que eram tratados por senhores. O Sr. Custódio era rico e tinha uma loja e a mulher nem trabalhava nas terras e até sabia ler!...
O caminho que passava em frente da loja do Sr. Custódio ia para os lados da Fraga e faceava, à esquerda, com uns currais, donde saía um quelho que dava para um casinhoto onde morava uma cega (não me lembro do nome) que ganhava a vida a fiar...
O caminho donde saía o quelho seguia por debaixo de um passadiço que era a morada de um outro Bordozedo com quem meu pai também andava zangado (e dessa zanga eu sabia a razão: ele deixou que uma cabra comesse uns enxertos de meu pai e meu pai matou-lhe a cabra. E ficaram quites: zangados para sempre e pronto!).
Passado o passadiço dávamos, de frente, com uma grande porteira que vedava o quintal da casa do Santestevo, que tinha um boi de cobrição e onde eu vi, pela primeira vez (tinha uns cinco/seis anos) como se faziam os vitelos: o monstro do boi a lançar-se por sobre o dorso da vaca que se encolhia e roncava sob, enquanto o Santestevo guiava o mastro do boi para dentro da coisa da vaca que era grande e até papujava... Antes de ver o boi do Santestevo a fazer vitelos eu já estava farto de ver os carneiros a saltarem para o espinhaço das ovelhas e os chibos (que na altura do cio cheiravam tão mal!) a montarem as cabras que se ficavam à sua espera. O fornicar das espécies era tão natural como o nascer das crias. Por isso, como eu me ri, quando um dia mais tarde, me quiseram convencer de que os meninos vinham de Paris...
Depois da porteira do Santestevo vinha a casa de uma outra viúva que ficava em frente do quintal do tio Amaro, do outro lado, e tinha uma filha da minha idade com uns olhos árabes de amêndoa doce e que veio a ser a minha primeira namorada. Não me lembro dos nomes nem da mãe nem da filha, mas lembro-me daqueles olhos de amêndoa doce e de como, com a dona de tais olhos, eu brincava a cozer arroz num panelo de barro. Nunca vi um panelo que tanto arroz parisse, quando começou a ferver! Era arroz por todos os lados a sair-lhe em golfadas pela boca!
Lembro-me também de que, perto da casa da minha namorada, era a casa da Tia Casemira, a sardinheira, casada com o tio Amadeu Frade que tinha uns grandes bigodes e um burro que trazia a sardinha de Sul e, agarrado ao rabo, vinha o tio Amadeu que apanhava cada carraspana que sem a ajuda do burro não atremava com a casa.
Antes da Fraga, ainda era a casa da tia Maria do Casqueiro, que cozinhava sempre na mesma panela que nunca lavava. Minha irmã Aurora muito gostava do caldo da tia Maria do Casqueiro! Minha mãe dava-lhe um pouco de unto para ajudar ao caldo.
Depois, sim, era a Fraga, com os currais do gado da vigia e a eira dos de Nespereira, já sobre o rio que vinha das Vessadas. Junto à eira dos de Nespereira ficava a casa que meus pais construíram por suas próprias mãos e que foi inaugurada no dia do meu baptizado (tinha eu já quatro anos e fui a pé, de calções, camisinha de popeline e laço, que a minha madrinha, que era mulher de um engenheiro que trabalhava nas minas em Regoufe, fez questão em me aperaltar!). Esta casa também já tinha algumas paredes em porpianho e telha marselha, menos sobre a cozinha que era coberta com lousas.
Entre o quintal do Tio Amaro e a casa dos meus pais ficava a casa do José Correia que era o factote dos de Nespereira, sempre a caminho daquele lugar, a cheirar-lhes o cu.
Antes de chegar à casa de meus pais, havia ainda a casa de um outro Mariano que tinha uma filha (a Maria do Mariano) muito amiga da minha irmã Aurora.
Em 1937 meu pai mandou fazer uma casa nova, em frente da primeira. Nunca a habitámos. Em 1939 viemos para Sul e acabou-se Macieira (do adro, ó do adro Macieira, tu deixaste-te enganar; já não achas quem te queira...)
E vim-me embora, mas dentro de mim ficou, para sempre, o menino serrano a calcorrear os caminhos da Vida. Todos partiram dali...

Novembro de 2009

Jaime Gralheiro

P.S.: Não falo nas castanhas nem no mel, porque, na povoação, não havia castanheiros e a gente, se queria castanhas, tinha de as ir apanhar do chão no Soito ou nas Vessadas (digo do chão porque as do ar eram dos donos; por isso, de vez em quando, voava, às escondias, um troxo em direcção aos ouriços, lá em cima a rirem-se de nós; a gente acabava-lhes com o riso e ala que se faz tarde, antes que o dono aparecesse!) e do mel não me lembro.

J.G.
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